And if you hear me talking on the wind you got to understand we must remain… Perfect strangers
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| — | Deep Purple |
Mendigos com barba por fazer, mas com tempo sobrando. Mendigos sem lâminas, mas com pulsos e batimentos. Mendigos com fome, com frio, com medo. Mendigos que se drogam com cola de sapateiro, que colam pedaços da vida roubada e que lambem a sola de um sapato quando dormem fora do banco da praça. Mendigos que usam em benefício próprios outros ainda mais pobres, mendigos que pedem permissão aos ratos para caber em um espaço já tão miúdo, apertado, úmido, repulsivo. Que adoçam as esquinas com o medo de acordar, que aspiram a fumaça dos cigarros na tentativa de sentir o gosto do luxo na língua áspera e ferida. Cigarros são dinheiro sobrando quando as únicas coisas que sobram são olhos alheios em todos os lugares. Em todos os lugares por onde um mendigo nunca passou. Olhos que veem o mundo dos calabouços, olhos que imaginam porque o céu não pode ser laranja ou verde limão. Mendigos que conjugam o verbo errado, mas que sabem que a ignorância é a melhor arma para se obter piedade e, quem sabe, só quem sabe, um prato de arroz e feijão para colecionar. Mendigos que já foram crianças, ou mendigos que ainda são os números furtados do berçário. As estatísticas que crescem nas ruas. O cabelo que cresce pro alto, mas o cérebro que encrua, que vegeta, que azeda a essência do homem humilhado e ressentido com a própria condição. Mendigos com dentes estragados que não sorriem por medo de perder a sanidade. Sobrevivendo infelizes, mas conformados. A infelicidade iguala os feitos de carne. A infelicidade atingiu o engravatado e espatifado no estacionamento do shopping, a infelicidade atingiu um adolescente com os bolsos sujos de expectativas. A infelicidade atinge todo mundo na cabeça, para que ninguém diga que a dor de um é pior que a dor do outro. Igualitária. Justa. Mendigos que se sentem bem com a infelicidade dos outros, porque só as deles fazem mal. Mendigos queimados em praça pública. Cachorros e cavalos sem sangue. Sem ração. Mendigos que brigam uns com os outros, mendigos que escutam a alma roncar e o estômago pedir silêncio. Mendigos que dormem em casas de jornais, protegem-se do frio, do abandono dos seres semelhantes em matéria… E o vento forte da noite sempre arrasta todas as letras embora, atrás do lixo das ruas, onde o Sol e os passos aquecem mais que um coração faminto. A manchete do dia era: somos humanos, somos pedintes, somos pobres de choro e alegria, somos miseráveis de cama e alma, somos todos gratos por ainda termos o chão, somos todos pedintes, somos todos poetas e mendigamos pela solidão.
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